Nesse artigo, eu não desejo fazer uma conceituação essencial do que seja arte. Isso significa que não falarei em termos filosóficos para classificar o que é arte, segundo o que é mais essencial nela. Gostaria apenas de situar o leitor em algumas verdades a respeito da arte que ninguém nunca pensou. Como eu sei que ninguém nunca pensou nisso? Porque há anos eu estudo filosofia, história e práticas de arte, e eu sei que nenhum historiador da arte falou o que eu estou falando aqui, e nem mesmo os filósofos que escreveram sobre arte e os transcendais do ser conseguiram sintetizar claramente o que vou expor.

Na Antiguidade e Antiguidade Clássica, Sêneca e Platão falavam de arte. Porém o sentido dessa palavra tinha um significado muito diverso do que conhecemos hoje em dia, especialmente porque o conceito da palavra arte foi deturpado. Mas voltemos um pouquinho no tempo… o que era arte? Platão classifica arte como uma produção humana, ou seja, uma capacidade de produzir algo segundo princípios racionais, que é próprio do ser humano. A partir dessa noção, Platão classifica as artes em artes servis e artes liberais. As artes liberais são aquelas voltadas ao desenvolvimento do intelecto e da razão. Já as artes servis são aquelas manuais ligadas ao trabalho físico e à produção de bens materiais.

Então, pensando na arte como conhecemos hoje, em qual dessas duas o leitor acredita que o conceito de arte se enquadra?

A “arte”, ou seja, a pintura, escultura, arquitetura e seja mais o que for, se enquadra nas artes servis. São trabalhos manuais, para o produzir um bem material. Para Platão, a pintura, escultura, música (poesia) e o teatro são artes miméticas, ou seja, se enquadram dentro das artes servis porém são uma forma de produção que imita (mimeses) a realidade. A relação de imitação que a arte tem com a realidade é um problema para Platão, porque isso indicaria uma arte muito longe das formas ideais, dentro da sua teoria das formas perfeitas. Mas quem sabe esse fica um assunto para uma outra carta.

Platão dizia que as artes são aproveitáveis quando edificam, segundo a ética e a moral, aquele que delas se utilizam. Sobre isso, ele fala extensamente no seu livro A República. Muitas vezes Platão rejeita os livros de Homero, dizendo que algumas passagens incitariam os jovens aos vícios, à covardia e assim por diante. Por outro lado, temos Aristóteles, o suprassumo da filosofia grega. Muitos escritos de Aristóteles se perderam e por isso não sabemos ao certo o que ele pensava sobre belas artes. Porém, ele deixou um livro chamado A Poética, em que ele fala como as formas de arte mimética (seguindo o conceito de Platão) que elevam são aquelas que nos absorvem da instabilidade cotidiana, levando-nos ao que ele chamada de catarse. Mas esse também fica um assunto para outra carta.

Até aqui chegamos a algumas conclusões filosóficas tradicionais, porque remetem a uma filosofia perene (Platão e Aristóteles) que não se perdeu no tempo, pois buscou a verdade sobre os seres. A “arte” como a conhecemos hoje é uma arte servil, voltada para o bem corporal, que ao mesmo tempo possui nela imitação e catarse. Ela não é o modo mais elevado de se chegar à contemplação da verdade, que era objetivo dos gregos, porque para isso utiliza-se em especial das artes liberais e faculdades superiores, que são o trivium e o quadrivium e depois a teologia e a filosofia. Após essa conceituação, podemos adequar melhor o conceito de belas artes. Segundo o nome diz, são aquelas artes que, de forma superior a totalidade das artes servis, só podem existir se nelas houver beleza.

Aqui apresentei alguns conceitos filosóficos sobre arte que não se perdem no tempo, para que pudéssemos meditar um pouco melhor sobre o que é arte, qual seu papel no mundo e o que ela precisa ser para ser classificada como tal. Porém há ainda muito o que tratar sobre o assunto, o que farei em outros textos aqui no blog!

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